Expressões do exílio nos contos de José Rodrigues Miguéis: uma análise cronotópica do despertencimento

22 janvier 2019

Tese de doutorado de Laerte Fernando Levai (USP, 2017)

A ler aqui

A obra contística de José Rodrigues Miguéis, construída toda ela sob o signo do exílio, traz a marca da ambivalência nas cinco coletâneas publicadas uma a cada década de sua vida literária: Onde a Noite se Acaba (1946), Léah e Outras Histórias (1958), Gente da Terceira Classe (1962), Comércio com o Inimigo (1973) e Pass(ç)os Confusos (1982, póstuma). O tempo convulso e o espaço de desfazimentos que permeiam a diegese projetam, à luz da teoria de Bakhtin desenvolvida em Questões de Literatura e de Estética (A Teoria do Romance), configurações cronotópicas capazes de suscitar a imagem do estrangeiro em busca de um lugar de realização. É pela porta dos cronotopos que se vê o ciclo desventurado do sujeito migueisiano, cuja sina marcada pela viagem-desencontro-agonia irmana-se à dinâmica do exílio social-psicológico-metafísico. Em uma época de tantas guerras e tiranias, onde a realidade do não-lugar contrapõe-se ao sonho da reintegração, ao emigrante desterrado de si mesmo e do mundo resta a memória forte ou a arte para recuperar aquilo que perdeu. Nesse cenário de incertezas o estigma do despertencimento ultrapassa a contingência pessoal dos narradores ou personagens centrais para se tornar um elemento simbólico da condição humana.

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Lodo

22 janvier 2019

Conto publicado em O Tempo e o Modo, 1.ª série, N.º 46, Fevereiro de 1967, Artes e Letras, pp. 223-229 (ler aqui)

Postumamente integrado em Pass(ç)os Confusos (1982)

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Incipit

… Chego por fim à imensa praça, até onde me arrastou a multidão densa e fluida, desconhecida e familiar, que quase sempre me acompanha e a que não consigo habituar-me: se bem que haja um certo contentamento em ser presente, mas anónimo ou invisível, e é talvez isso que procuro. Olho em volta, neste movimento de estranha tranquilidade, e avisto ruínas – na realidade apenas esqueletos de edifícios, vastos panos de paredes com rasgões onde houve janelas, e muito mais altos do que a memória me ensinava: se é que os conheço. Talvez os tenha sonhado ou inventado assim. O espectáculo faz-me pensar: continuamos a construir ruínas! Que quero eu dizer com isto? Fraca consolação… Toda esta gente parece marchar para um destino. Só EU não sei aonde vou. Nisto, vejo vir direito a mim este incógnito amigo há tanto tempo ausente (ou fui eu talvez que o estive), e tenho um sobressalto de alegria: ando sempre à procura de alguém – parentes que não tenho, amigos, relações – de alguma coisa que não encontro ou perco, ou já perdi ou nunca tive.


Militante e/ou escritor: ironias migueisianas

20 décembre 2017

Texto de Georges Da Costa.
In Ernesto Rodrigues et Rui Sousa (org.), A Dinâmica dos Olhares. Cem Anos de Literatura e Cultura em Portugal, Lisboa, CLEPUL, 2017.

Ler aqui


Quando os medíocres boicotam os grandes: José Rodrigues Miguéis, Leonel Brito e Carlos Cruz

20 décembre 2017

La Rochefoucauld bem nos avisou: “Les esprits médiocres condamnent d’ordinaire tout ce qui passe de leur portée.” A frase aplica-se como luva ao sucedido, em 1980, com o escritor José Rodrigues Miguéis, o cineasta Leonel Brito e o apresentador de televisão Carlos Pereira Cruz, quando este exercia as funções de director-coordenador da RTP1.

Ler o texto de Teresa Martins Marques na revista Caliban


Exil

21 février 2017

Ce ne sont pas seulement la réalité et le regard étrangers qui lui imposent avec insistance sa qualité d’étranger. C’est la conscience aiguë et exaspérée de sa différence qui l’installe dans un exil qu’aucun bien-être ni succès temporel ne peuvent effacer.

(Eduardo Lourenço, « Les marques de l’exil dans l’oeuvre de José Rodrigues Miguéis », Georges da COSTA, Catherine DUMAS, Agnès LEVÉCOT (éds.), Exils et décalages chez l’écrivain portugais José Rodrigues Miguéis, Paris, Presses Sorbonne Nouvelle, 2016, 282 p.)


Os homens da Seara Nova | Les hommes de Seara Nova

15 avril 2016

Os homens d’A Sementeira não eram um partido nem queriam governar: mas esclarecer, inspirar, agitar problemas e indicar soluções. Embebidos de crítica histórica, e com tendências socializantes, preconizavam a reforma da educação e da mentalidade, acreditavam no advento da Razão, na eficácia das ideias puras, na transformação das coisas pelo espírito, no mérito pedagógico da pregação e da polémica, e tinham vocação da renúncia, o desprezo da hipocrisia, do empirismo e videirismo da existência nacional. Entre o « marasmo parlamentar » e a « agitação endémica das ruas », procuravam o meio-termo, a estrada lisa da persuasão, que levaria a uma política técnica e racional; em que os interesses privados, os caprichos e flutuações humorais dos homens não influíssem perniciosamente. Fiéis às liberdades cívicas, tinham da politicagem o mesmo horror que os seus maiores da Grande Geração nutriam pelo Constitucionalismo decadente: mas, se aqueles haviam feito sobretudo literatura, sátira e especulação, e derivado mesmo para a Autoridade, os iluminados d’A Sementeira intentavam refazer o regime, dentro do quadro nacional e actual, a golpes de doutrinação, sugerindo reformas concretas na educação, na economia, nos costumes e nas instituições democráticas. […] Tudo assim neles o fascinava: desejou actuar, como eles, ao sopro casto das intenções impessoais, desinteressadas. Combater no terreno das ideias era também, afinal, a maneira de evadir com elegância os seus próprios problemas.

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Les hommes d’A Sementeira ne formaient pas un parti et ne voulaient pas gouverner : mais éclairer, inspirer, discuter les problèmes et indiquer des solutions. Imprégnés de critique historique, et avec des tendances socialisantes, ils préconisaient la réforme de l’éducation et des mentalités, ils croyaient à l’avènement de la Raison, à l’efficacité des idées pures, à la transformation des choses par l’esprit, au mérite pédagogique de la propagande et de la polémique, et ils avaient la vocation du renoncement, le mépris de l’hypocrisie, de l’empirisme et de l’arrivisme de l’existence nationale. Entre le « marasme parlementaire » et « l’agitation endémique des rues », ils cherchaient le juste-milieu, le chemin sans aspérités de la persuasion, qui mènerait à une politique technique et rationnelle, où les intérêts privés, les caprices et les fluctuations d’humeur des hommes n’influeraient pas pernicieusement. Fidèles aux libertés civiques, ils avaient de la politicaille la même horreur que celle que leurs ancêtres de la Grande Génération nourrissaient à l’encontre du Constitutionnalisme décadent : mais si ces derniers avaient surtout fait de la littérature, de la satire et de la spéculation, et avaient dérivé vers l’Autorité, les illuminés d’A Sementaira essayaient de réparer le régime, à l’intérieur du cadre national actuel, à coup d’endoctrinement, en suggérant des réformes concrètes dans l’éducation, l’économie, les coutumes et les institutions démocratiques. […] Ainsi, tout en eux le fascinait : il voulut agir, comme eux, porté par le souffle chaste des intentions impersonnelles, désintéressées. Combattre sur le terrain des idées était aussi, finalement, la manière d’échapper avec élégance à ses propres problèmes.

(JRM, Idealista no mundo real)


« Éthique et esthétique de l’ironie chez José Rodrigues Miguéis », de Georges da Costa

9 février 2016

Avec la publication toute récente (janvier 2016) de cet ouvrage, les Éditions Pétra élargissent leur exploration dans le monde lusophone. Éthique et esthétique de l’ironie chez José Rodrigues Miguéis, de Georges da Costa, est une adaptation de sa thèse de doctorat en Études lusophones soutenue en juin 2010 à l’Université de la Sorbonne Nouvelle.

Dans la préface de ce livre, intitulée fort justement « Une invitation à la lecture », le professeur et écrivain Onésimo Almeida souligne que cette étude est riche en nouveautés : « D’abord par le fait de paraître en France, où jusqu’ici Miguéis n’avait pas encore obtenu toute l’attention qu’il méritait. Ensuite parce que ce thème est complètement original dans la bibliographie passive de Miguéis. Enfin, une troisième nouveauté : son auteur provient non pas du champ littéraire mais de celui des sciences, apportant à la critique littéraire migueisienne un style exemplairement différent, puisqu’il utilise un discours dépouillé de tout jargon académique ». José Rodrigues Miguéis (1901-1980) quitte le Portugal de Salazar en 1935 et passe la plus grande partie de sa vie en exil aux États-Unis. Si, d’un côté, les préoccupations éthiques du militant politique imprègnent forte- ment des récits où l’ironie classique et satirique est un instrument privilégié, de l’autre, l’écrivain met régulièrement en scène ses doutes et questionnements usant d’une autre ironie, romantique et/ou moderne. La présence de ces deux ironies contradictoires apparaît ainsi comme les deux faces littéraires d’un même drame identitaire, celui de l’écrivain exilé.

Maître de conférences en Langue, littérature et civilisation portugaises à l’Université de Caen-Normandie depuis 2012, Georges da Costa a été, pendant près de vingt ans, enseignant de mathématiques et sciences physiques dans le secondaire. Membre de deux groupes de recherche universitaire, il est également le cofondateur de l’association Autres Brésils (www.autresbresils.net).

Texte de Dominique Stoenesco, Lusojournal, 27/01/2016.