Onde a noite se acaba | Où la nuit s’achève

11 février 2014

Au bout de quarante ans, mettant toujours en doute ce que je faisais, mes errances et zigzags, mes fuites consécutives (pas de carrière, pas d’emploi, pas de stabilité), ma littérature, où je devinais des intentions occultes, confessionnelles, des justifications – je découvris soudainement que je pouvais croire en moi-même et que les autres croyaient en moi : comme écrivain.

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Ao cabo de quarenta anos, sempre descrente do que fazia, das minhas errâncias e ziguezagues, das minhas fugas consecutivas (sem carreira, sem emprego, sem estabilidade), da minha literatura, em que adivinhava intenções ocultas, confessionais, justificações – descobri de repente que podia acreditar em mim mesmo, e que os outros acreditavam em mim: como escritor.

(José Rodrigues Miguéis. Lettre à Maria da Graça Amado da Cunha. Espólio de José Rodrigues Miguéis. Biblioteca Nacional de Portugal.)

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Palimpsesto | Palimpseste

27 décembre 2012

O remédio era proceder como para um palimpsesto em que a vontade e escrúpulo do escriba ou copista limpa rigorosamente do pergaminho ou papiro o texto que lá estava, para traçar sobre ele o texto novo (…) que lhe dará a ilusão de outra existência, de uma finalidade ou razão de ser, capaz de offset a vida autêntica, original. Esse é (era) o segredo. Mas, como em tantos palimpsestos, o texto original acaba por reçumar, reaparecer, tornar-se legível, impor-se… e acaba até por confundir o texto sobreposto.

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La solution était de procéder comme pour un palimpseste où la volonté et les scrupules du scribe ou du copiste nettoient rigoureusement du parchemin ou du papyrus le texte qui s’y trouvait, pour y tracer par dessus le nouveau texte […] qui lui donnera l’illusion d’une autre existence, d’une finalité ou d’une raison d’être capable de offset la vie authentique, originale. Là réside (résidait) le secret. Mais, comme pour tant de palimpsestes, le texte original finit par se révéler, réapparaître, devenir lisible, s’imposer… et finit même par confondre le texte superposé.

(José Rodrigues Miguéis. Lettre à Maria da Graça Amado da Cunha. Espólio de José Rodrigues Miguéis. Biblioteca Nacional de Portugal.)


José Rodrigues Miguéis / José Saramago : Correspondência 1959-1971

18 juillet 2010

La correspondance de José Rodrigues Miguéis avec le nobel portugais maintenant disparu, José Saramago. Livre édité en juin 2010.

Quem sabe se a felicidade não seria exactamente esse pôr o homem a viver, no seu dia de hoje, a sua vida toda, integrar a memória total na parcela de homem que em cada dia somos? Ou talvez não fosse felicidade, talvez fosse um inferno – a irremediável saudade…

(Carta de José Saramago a José Rodrigues Miguéis, 7 de Junho de 1960)

Será por vaidade ou por ambição que nos escrevemos? (Para « ganhar a vida » – ou perdê-la – há bem melhores meios!)
Dizia o meu avô Sahil (de Góis), morto há quase 70 anos: « A ambição eleva o homem, a ambição o precipita »: Não sei a que Bíblia ele foi buscar esta filosofia. – Porque escrevo eu, se quando me liberto disso, e ando por aí sem destino, me sinto aliviado, livre e quase feliz? – Sim, porque no meio de tantas tormentas, tenho dias de calma e de quase-felicidade, que clarifico com a minha própria substância, os pensamentos!

(Carta de José Rodrigues Miguéis a José Saramago, 13 de Outubro de 1971)