L’écrivain-journaliste portugais José Rodrigues Miguéis face à l’installation de la dictature de Salazar

11 décembre 2013

Article de Georges da Costa publié dans la revue Aden – Paul Nizan et les années 30, n°12, octobre 2013, p. 27-44.

Couverture Aden 12

New-York, 10 juillet 1937 : en pleine guerre civile espagnole, lors d’un meeting au Madison Square Garden rassemblant plusieurs milliers de personnes, une douzaine d’orateurs défilent à la tribune, dont Norman Thomas, leader du Parti socialiste américain, et Earl Browder, leader du Parti communiste américain. Parmi eux, sous le pseudonyme de « Joseph Pombo », l’écrivain José Rodrigues Miguéis (Lisbonne, 1901-New York, 1980) prononce un discours au nom du Groupe antifasciste portugais. Condamnant la « politique fasciste de Salazar » , il évoque l’action du Front populaire portugais  et affirme, entre autres, l’importance de « la lutte du peuple espagnol » pour l’avenir du Portugal.
Avant son exil aux États-Unis, Miguéis avait pourtant un brillant avenir devant lui au Portugal : journaliste et militant républicain reconnu depuis le début des années 20, orateur hors-pair, il avait également été encensé pour sa première publication fictionnelle en volume, Páscoa feliz (1932). Mais, suite au coup d’état militaire du 28 mai 1926, la censure et la répression vont s’installer progressivement au Portugal. L’opposition républicaine et anarchiste au régime sera inefficace, malgré de nombreuses années de lutte et de guerre civile. Cela aboutira à la constitution de l’ »État nouveau » de António de Oliveira Salazar en 1933 , régime corporatiste et dictatorial d’inspiration fasciste, et à une longue nuit anti-démocratique de plus de quarante ans, et poussera José Rodrigues Miguéis à se rapprocher du parti communiste puis, finalement, à s’exiler aux États-Unis en 1935.
Les années précédant son départ furent intenses à bien des niveaux et, que ce soit en tant que journaliste-militant ou en tant qu’écrivain, Miguéis va jouer un rôle de premier plan dans le paysage intellectuel et culturel portugais. De l’oeuvre de José Rodrigues Miguéis (six romans, deux longues nouvelles, quatre recueils de contes et nouvelles, un récit autobiographique, trois recueils de chroniques et essais, un recueil de fragments aphoristiques, une pièce de théâtre), nous retiendrons pour notre analyse deux récits publiés entre 1930 et 1935 : Páscoa Feliz et « O Acidente ».


Páscoa Feliz

1 mars 2009

Un extrait de la longue nouvelle Páscoa Feliz, 1er récit publié en volume par Miguéis en 1932. Son deuxième livre, le recueil de contes et nouvelles Onde a noite se acaba, sera publié 14 ans plus tard au Brésil.

Source : Crestomatia de Quarta (Feira).

………………………

Sinto-me bem nesta cadeia. É um belo edifício claro, em pavilhões de dois andares, isolados no meio duma grande cerca arborizada, que um alto muro separa, julgo eu, de caminhos e terras cultivadas. Nenhum rumor chega de fora. Às vezes, vou até junto desse muro, que a hera muito densa envolve de poesia, e, numa sombra repousante e fresca, abandono-me a ouvir os pequenos murmúrios da terra e do ar – uma folha que tomba, um pássaro que tila, um insecto que zumbe, um gorgolejo de água – e assim levo muitas horas do meu dia, meditando e escrevendo, como os frades antigos, até que um toque de sineta me venha chamar para a comida ou para o recolher.

Tudo me parece raro, novo e extraordinário. Só agora descubro o oculto sentido de muitas coisas – e mais pela emoção que me provocam do que pelos juízos que formulo. Assim, depois dos meus erros e crimes, pergunto a mim mesmo se será legítimo viver com tanta calma e despreocupação: um criminoso não deveria ter dores, ser torturado? A punição é apenas isto?

Sim, tenho há muito a impressão de que vivo num sonho. A vida corre com uma serenidade impressionante. Penso quanto, noutro tempo, eram felizes os homens a quem se concedia o direito de fugir, como eu fugi, afinal, à vida angustiosa do mundo. Quase me julgo feliz. E porque não?

A cadeia não é como eu supunha, nem o que se diz lá fora. Nada nos falta, tratam-nos bem, embora vivamos numa quase completa solidão. Isto a mim agrada-me, de resto: aborreço o convívio dos homens. Só na aparência os considero meus semelhantes. Aqui, sou apenas um número: o 28.

Vejo agora quanto a criminologia tem progredido no sentido da mais ampla liberdade: cada qual faz o que quer – ou não faz nada. Muitos presos passam os dias metidos na cama. O trabalho deixou de ser obrigatório. A regeneração do criminoso obtém-se agora, ao que parece, por uma forma espontânea, a que eu, se dão licença, chamaria a “psicoterapia da indulgência”.

Toda a casa é irrepreensivelmente asseada. O meu quarto é branco, limpo, tem um tecto alto e uma enorme janela sem grades, donde enxergo um vasto panorama de pinhais e terras de lavoura.

Não posso deixar de registar, no entanto, um facto muito estranho: às vezes, durante a noite (eu durmo pouco e tenho o sono leve), sobressalto-me ouvindo gritos, discussões, gemidos, um rumor de luta e de pancadas, e mesmo um estilhaçar de vidros… A primeira vez que tal aconteceu, cobri-me de suores e fiquei todo arrepiado. Receei que se aproveitassem da noite para nos aplicar um tratamento um pouco rude. Como tudo se calou, tornei a adormecer. O caso repetiu-se, e cheguei a julgar-me vítima de alguma ilusão. Porque gritavam? Intrigado, ergui-me várias vezes para escutar, mas acabei felizmente por me desinteressar do que se passa nesta grande casa de aspecto misterioso. São presos que se revoltam, ou que brigam, e a quem aplicam penas corporais? Não sei. Renuncio a sabê-lo. Ninguém me dá, nem eu peço, explicações. Nada me importa, os outros não existem para mim… Que façam como eu: calo-me, obedeço, vivo tranquilamente. De que serve a liberdade? Livre, o comem corre ao precipício.

Outro facto que de começo me indispôs: não me deixam ler os jornais, nem mesmo os antigos, onde poderia encontrar certos dados cuja falta me perturba.

Que terá dito de mim a grande imprensa?

Não tenho notícias do que vai pelo mundo. Não sei mesmo onde me encontro. Vivo como um cenobita.

Isto é bom.

O que desta gente me separa é o receio de ser diferente, um outro.

Oh, este horror de sentir a realidade fugir sob os meus próprios passos! Trabalhosamente, recomponho o “Eu”, que a presença dos outros dissipa e confunde.

Isto é claro e horrível… Muitas vezes, subitamente, parece que deixo de ser eu, e a própria ideia do meu crime se obscurece, o meu passado é outro, como se uma força poderosa me arrastasse para um novo plano da existência. Então, fujo e luto comigo, a sós, desesperado.

O isolamento e a calma da prisão permitem-me pensar melhor e ordenar tantas recordações. Embebido em mim mesmo, sinto arder, mais vivo, o meu poder de concepção, e ainda espero compor alguns volumes de análise introspectiva. Vou meter o Nietzsche num chinelo.

Penso às vezes com piedade na insensatez dos que lutam apaixonadamente pela vida livre; chego a rir do meu próprio passado, eu, que já me deixei arrastar pelo remorso e pela dor. Agora sinto-me perfeitamente sereno. Não imaginam o que isto representa para mim! Estou sentado a escrever; sinto um sopro de Primavera vir de fora, pela janela aberta, nos raios do sol, e ouço na cerca o ramalhar das árvores cobertas de verdura nova, que o vento acaricia brandamente. Vozes… Também um sentimento novo de alegria me agita o coração.

Toda a gente aqui tem, para mim, deferências impressionantes. Só alguns dos companheiros, pobres náufragos que passeiam como eu na cerca, parecem querer às vezes provocar-me. Que mal lhe fiz? Estranhos tipos a quem a clausura parece ter roubado o senso! Dizem coisas perfeitamente infantis e sem sentido; mas os guardas que nos vigiam levam-nos logo para longe de mim.

Não me admira que estejam loucos, se, como se julga, o isolamento produz graves afecções, mesmo em quem foi sempre equilibrado. Sim, a solidão é um privilégio de raros, o domínio dos fortes! Uns aproximam-se para me fazerem confidências absurdas ou monstruosas. Um declarou chamar-se Ivânov e ser domador de leões: é um pobre raquítico, que mal tem nas pernas. Outro jura-me ser o Imperador Guilherme, e estar aqui esperando que o Hindemburgo o venha buscar para tomar Paris de assalto. Provavelmente são as alcunhas que outrora lhes deram, e com as quais as suas imaginações sobreexcitadas compuseram lendas… Outros insultam-me ou segredam-me obscenidades, aventuras de amor que são de arrepiar, ocorridas aqui dentro, com mulheres misteriosas que ninguém sabe donde vêm nem para onde vão. E há os que me fazem gestos lascivos ou provocadores, de longe, por entre as árvores da cerca. Volto-lhes as costas, com indiferença. Nem já sequer me causam piedade. Porque os não metem numa enxovia?

Recebo poucas visitas e, coisa estranha, não reconheço algumas das pessoas que se dizem das minhas relações. Interrogam-me, invocam nomes, datas, olham-me com espanto e curiosidade. Com franqueza, irritam-me. Às vezes trato-as mal. A impressão que me fica é de tê-las conhecido, sim, mas numa vida anterior de que me não resta lembrança viva… Há certos enigmas contra os quais luto em vão.

São talvez pessoas que se interessam pelo meu “caso”: romancistas, quem sabe, ou psicólogos. Deixá-lo. Minha mulher também vem, às vezes na companhia de estranhos. Faz-me dó. Olha-me com tristeza e com receio, como se eu estivesse transtornado. Veste de escuro. Trabalha decerto para comer, e tem os olhos pisados. Agarra-se de repente a mim, a soluçar, e diz-me: “Lembra-te! Lembra-te!…”

Oh, meu Deus, estas cenas perturbam-me, e eu não posso, não posso mais! Sinto que perco o equilíbrio… Deixem-me só! Deixem-me só! Que queres tu que eu recorde? Porquê teimam todos que me lembre? Que me lembre – de quê? de quem?

Recebo-a, pois, sem nenhum entusiasmo. Imaginem que às vezes me vem supreender num dia de inspiração ou de trabalho: procuro despachá-la o mais depressa que posso. As mulheres imaginam que nós devemos sacrificar os mais altos fins da existência às futilidades sentimentais, ou à recordação do que passou – do que deixou de ser.

Quero-me só com o meu presente. O passado não me importa. É bom adormecer com a certeza de que “amanhã” será uma coisa diferente. Porventura o eu de hoje continua o de ontem? O passado não existe, é uma ideia que alteramos a nosso gosto. Cada dia que nasce traz uma vida nova.

Entre nós tudo acabou. Tenho pena dela. Mas porque não se divorcia? As mulheres não compreendem certas coisas… Se encontrasse um marido honesto e dedicado, ainda podia ser feliz, e eu ficava contente. Como eu consigo já não ter ciúmes! E acreditem: estimo-a muito. Pobre Luísa!… É preciso ser puro. Mas ela não entende!

O director da cadeia é muito amável para mim. Não sei que lhe fiz. Tem comigo atenções que não posso esquecer. Anda sempre de bata muito branca. Interroga-me às vezes demoradamente, e já conseguiu reavivar-me a lembrança de certas coisas que eu julgava ter esquecido para sempre, talvez por serem tão banais. E fá-lo de tal modo que não me atrevo a resistir-lhe.

– Vês tu? – disse-me ontem de manhã, sentado na minha cama. – Já conseguiste recordar coisas bem sugestivas. Temos de continuar!

Prometi mostrar-lhe este manuscrito, logo que o tivesse acabado. (É a revisão do que levei ao tribunal.)

– Pois sim. Mas trabalha devagar. E escreve tudo – tudo!

– É impossível. Há coisas que eu não consigo esclarecer.

– Mas faz um esforço. Talvez eu possa ajudar-te. É para teu bem.

– Mas eu não quero sair daqui!

Acorda-me de noite, sem motivo aparente, para me fazer certas perguntas. Mostra-me retratos, conta-me incidentes que me parece ter já lido algures…

– Hás-de curar-te – diz. – Hei-de acabar por te restituir a memória completa de ti mesmo! – E de repente: – Quem era o Abílio?

Estremeço. O Abílio… Uma angústia indefinível:

– Espere! Espere! Eu lembro-me… Conheci um…

– Quem era? Onde vivia?

O Abílio… Eu sabia, eu sabia! Mas é impossível distinguir… Eu quero, mas há um muro que me separa não sei de quê… Uma angústia, como se dentro de mim um animal lutasse contra a minha vontade…

– Não posso! Não posso! Não quero…

Àquele simples nome, tudo se convulsiona em mim.

– Há um mês não conhecias este nome. Hoje conhece-lo?

– Conheço…

– Obrigado.

Obrigado – porquê? Que interesse tem ele nisso? Que lhe importa o que adormeceu cá dentro? Detesto que me façam perguntas.

Eu já sofri. Já fui um descontente, um revoltado, se quiserem. Hoje vivo serenamente. A serenidade é a maior virtude da inteligência.

O que houve em mim foi um simples conflito dos meios e dos fins. Todo o meu drama se resume nisto. Não discutam se sou mau ou bom. Os actos são bons ou maus, não segundo a vontade, mas segundo os efeitos. E há fatalidades que nos impelem, através do mal, para um destino de beleza perfeita.

A ideia do mal faz-me pensar na Sociedade: estamos quites! Nada fez por mim, nada lhe devo, vivi à margem dela como um cardo à beira dum caminho. Também a não acuso. Não passa duma abstracção para que apela quem já nada espera de si mesmo… Não há senão indivíduos. (Verdadeiramente, só eu existo, eu e estes pensamentos.) E todos exigimos dela alguma coisa!

Mas porque hei-de eu pensar no mundo? É um hábito que fica. Detesto a vida activa! Os gestos que faço, os passos que dou, perturbam-me a vida interior, que é o meu prazer. Esquecimento, quietação! Doutro, não me olhe assim! Não me pergunte mais nada!… Tenho amor a esta casa onde adquiri a certeza definitiva de que existo, porque penso.

Nesta hora solene em que revejo, comovido, a minha biografia, para que hei-de mentir? Eu sou o homem que obedeceu.

Não me considerem pois um criminoso.

(Miguéis, José Rodrigues, Páscoa Feliz, 5.ª ed., Editorial Estampa, Lisboa 1981, pp. 19‑27)